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A DECO e o teste dos batons!

O artigo da DECO sobre batons hidratantes veio pôr a nu várias realidades. Primeiro, que os jornalistas da secção de beleza de revistas ou jornais não sabem ler estudos e não sabem nada sobre ingredientes. O que é uma realidade preocupante, visto que é através de artigos publicados por estas pessoas que a maioria de nós tem acesso às novidades de beleza e ao que supostamente é o melhor da cosmética. Não acho que seja necessário uma pós-graduação em cosmética para escrever sobre beleza, mas algumas noções básicas deveriam ser essenciais.

Vejamos, a NiT que diz que Vasenol vaselina a 100% é perigosa porque contém uma substância perigosa chamada petrolatum. Petrolatum é… vaselina. E para a maioria de nós, vaselina pura era o que as nossas avós usavam como hidratante labial. E sim, é um derivado purificado do petróleo com propriedades hidratantes e cicatrizantes. O Petrolatum é obtido a partir de uma série de purificações do petróleo bruto, da mesma forma que são obtidos outros derivados do petróleo como a parafina sólida ou a cera mineral. Na verdade, o Petrolatum foi patenteado para uso cosmético pela primeira vez em 1872 e é provavelmente uma das substâncias mais estudadas para uso cosmético. Não é uma substância perigosa, caso contrário, não seria usada em cosmética há tantos anos, mas como é óbvio, não deve ser ingerida. Mas, escrito desta forma parece que a vaselina está contaminada com uma substância perigosa e não é o caso. E dizerem algo como um batom é perigoso ou um batom está na “lista negra” é irresponsável e muito grave.

Quanto ao estudo da DECO, vamos começar pelo básico. A DECO aceita artigos pagos. E acho que devemos ter isso em mente, pois os seus estudos podem ter validade, mas precisam de ser lidos com espírito crítico. Primeiro, os métodos utilizados não são descritos com clareza. A forma vaga como descrevem “Como testamos” nunca seria aceite para um estudo dito científico publicado numa revista científica de referência.

Como a DECO refere, a lei europeia permite a utilização de óleos minerais em cosméticos, “se se conhecerem todos os antecedentes de refinação e se se puder provar que a substância a partir da qual foram produzidos não é carcinogénica”.  E sim, a legislação permite o uso de óleos minerais, porque na maioria dos casos são excelentes a manter a hidratação e a função barreira da pele.  E se há algo muito bom em pertencer à União Europeia é que a legislação europeia para a cosmética é muito mais rigorosa do que por exemplo, a legislação americana ou brasileira. Afinal, na Europa as autoridades que legislam para a cosmética são as mesmas que legislam para medicamentos, o que faz com que a legislação seja, em geral mais apertada. E não é à toa, que, por exemplo, os protetores solares europeus são bem melhores a nível de tecnologia do que os americanos.

Quimicamente, os óleos minerais e ceras consistem em misturas de carbono saturadas usualmente designadas de MOSH [hidrocarbonetos saturados de óleos minerais]. Os óleos minerais e ceras usados em produtos cosméticos são, em geral, altamente refinados. passando por processos como destilação, extração e cristalização seguidos de purificação. Este processo tem como objetivo minimizar a presença de compostos aromáticos designados por MOAH [hidrocarbonetos aromáticos de óleos minerais] que estão inevitavelmente presentes no óleo mineral que serve de matéria-prima. Os MOAH estão sob escrutínio porque podem conter carcinógenios genotóxicos como contaminantes.

Como é necessário fazer uma avaliação do risco para a saúde destes compostos e porque a análise da composição de um óleo mineral é extremamente complexa, usualmente quantifica-se apenas a soma de MOSH [proveniente de óleos minerais] com POSH [proveniente de óleos sintéticos].

A Cosmetics Europe assume que a maioria dos materiais dos batons são ingeridos. Por isso, estes testes assumem a pior hipótese que é todo o baton ser ingerido e por isso quem usa um batom diariamente, pode estar a ser exposto a níveis de MOSH+POSH superiores ao que é aconselhado. Por isso, é recomendado que os produtos labiais contenham menos do que 5% de MOSH+POSH.

E sim, uma mulher em média consome 7 batons ao longo da sua vida. Este estudo, por sua vez, baseia-se na premissa que todo o batom é ingerido. 

E que conclusões a tirar? Pessoalmente, evito usar batons com óleos minerais, mas parece-me altamente improvável que sejam perigosos para a saúde. A menos que gostem de os comer, claro. Mas, quem tem crianças pequenas deve estar atenta a este pormenor, porque eles têm tendência a ingerir o batom aplicado.

Para quem tem um batom preferido que tem óleo mineral não tem razão para ficar preocupado. Para quem não gosta da ideia, deve evitar ingredientes como:

  • Paraffinum Liquidum
  • Petrolatum
  • Cera Microcristallina ou microcrystalline wax;
  • Ceresin;
  • Hydrogenated microcrystalline wax;
  • Hydrogenated polyisobutene;
  • Ozokerite;
  • Paraffin ou parafina;
  • Polybutene;
  • Polyethylene;
  • Polyisobutene;
  • Synthetic wax.

E que boas opções existem no mercado? O meu preferido é o Burt’s Bees Pink Grapefruit e para os batons coloridos gosto da marca Jane Irisdale que tem apenas maquilhagem natural. Os Batons da Caudalie também não têm óleos minerais, o bálsamo hidratante da REN também não bem como o Honey Trap da Lush. Para crianças o stick da Mustela lábios e maçãs do rosto é uma boa opção.

O que é de reprovar no teste da DECO é o facto de apenas alarmar as pessoas e não propriamente informar o consumidor convenientemente. Na verdade, o que me alarma é colocarem estes óleos no pão e outros alimentos, porque aí são certamente ingeridos. Mas alguém fala disso? E também acho muito conveniente, apenas um batom, o Cien Care passar no teste da DECO, quando existem outras opções no mercado que não contêm óleos minerais.

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15 Comentários

  • Responder Ana Samuel Outubro 9, 2017 at 1:29 pm

    Muito obrigada pelo seu artigo tão informativo. Assim é que o leitor/consumidor ficas informando e com opções.
    Tal como a Andeia, Também fiquei ” com a pulga atrás da orelha” quem vi exclusivamente o Baton Cien recomendado… Muito estranho.

    • Responder Andreia Outubro 9, 2017 at 3:08 pm

      Olá Ana,
      infelizmente quem diz proteger os consumidores não o faz. 🙁

  • Responder Márcia Outubro 9, 2017 at 2:25 pm

    Adorei o post. Quando li o artigo, pensei: artigo pago, não é possível que sempre a CIEN é a melhor em todos os testes. COmo colocam no texto, parece ser a coisa mais perigosa do mundo e sabemos que existem muito piores na indústria alimentícia, como mesma referiu. Eu particularmente estou sempre a procura de coisas que não são derivadas do petróleo, mas não que seja alarmista como o artigo da Deco referiu, é porque não gosto mesmo de muita coisa sintética.
    Enfim, é tentar sempre ter discernimento para ver o que é ou não propaganda embutida por trás. Não acredito em nada da Deco.

    • Responder Andreia Outubro 9, 2017 at 3:04 pm

      Que opinião sensata a sua, Márcia. 🙂

  • Responder Catarina Reis Outubro 9, 2017 at 3:09 pm

    Olá, cara Andreia!
    Este seu artigo é verdadeiramente informativo e realista (como de resto já nos habituou). Obrigada pelo seu conhecimento e esclarecimentos. Hoje sim tive mesmo que comentar, pois estou farta dos testes muito pouco imparciais da DECO. Não me parece que “Defesa do Consumidor” tenha uma conotação tão pró-determinadas-marcas.
    Continue com o bom trabalho!
    Cumprimentos.

    • Responder Andreia Outubro 10, 2017 at 2:43 pm

      Obrigada Catarina! Cumprimentos

  • Responder Maria Ramos Outubro 10, 2017 at 10:57 pm

    Olá Andreia,
    Muito obrigada pelo excelente artigo.

    • Responder Andreia Outubro 15, 2017 at 4:46 am

      Obrigada Maria!

  • Responder Sofia Borges Outubro 12, 2017 at 10:42 am

    Andreia, adorei a sua exposição. Se não acreditava no teste dos cremes, agora tenho mesmo a certeza da parcialidade da Deco. Bom trabalho!

  • Responder Maria Correia Outubro 14, 2017 at 12:47 pm

    Muito bom 🙂

    • Responder Andreia Outubro 15, 2017 at 1:46 am

      Obrigada Maria! 🙂

      • Responder Maria Correia Novembro 1, 2017 at 12:12 am

        Vim ler novamente esta publicação, porque a NiT continua a publicar o mesmo “estudo”. E para “lavar” o cérebro, venho ler este. A sério que adoro esta explicação.

        • Responder Andreia Novembro 2, 2017 at 3:14 pm

          Obrigada Maria 😉

  • Responder Liliana Outubro 16, 2017 at 6:21 pm

    Olá Andreia 🙂
    O bálsamo labial da Filorga é uma boa opção? É um bom hidratante para lábios mais desidratados?

  • Responder Andreia Outubro 19, 2017 at 2:03 pm

    Olá Liliana,
    sim é 🙂

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